sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Primavera" por Edmar Gomes.

 As flores que antes suplicavam atenção no jardim da casa de Ana estavam desaparecidas nesta manhã, apenas as folhas e galhos restavam finos e tortuosos. Esta mesma levantou cambaleante, horas após o galo acordar – exatamente às nove. Nem ouvira quando este último cantarolou de cima de seu poleiro velho e desintegrado. Mas sentira em suas narinas, o aroma saboroso do adeus à primavera. 
 Quando chegou à sala e os raios solares iluminaram parte de seu corpo, bocejou fortemente enquanto se dirigia até a cozinha. 
- Mãe? – chamou com uma voz abafada, de quem dormiu várias horas. Seguiu até a porta que dava de encontro ao quintal e deixou outro bocejo escapar. 
 Dona Amália estava de pé próxima ao galinheiro com um vestido estampado nas cores bege e vermelho. Em sua mão esquerda havia uma sacola pequena e branca que preenchia toda a sua palma; enquanto que a direita jogava o milho contido na sacola para as pequenas aves. 
- Bom dia. – Indagou, antes mesmo que Ana dissesse algo. O único som que se podia ouvir era o das galinhas bicando o milho no chão e do bater de asas, além dos cocoricós baixinhos. 
 Ana suspirou. 
- As flores sumiram. Não sinto mais o cheiro delas. – Disse baixinho, sem olhar para a mãe; quase uma súplica. 
 Amália parou de alimentar as aves, amarrou a sacola e veio para a cozinha, passando pela filha e abrindo um sorriso acompanhado de um brilho nos olhos. Era tão imenso o amor que ela sentia por Ana, que às vezes lhe faltavam palavras. 
- Bem, – encostada na pia da cozinha, continuou a lavar a louça ainda suja. – chega um tempo em que as coisas têm de ir embora, minha filha. A única coisa boa é que as primaveras vêm e vão, junto com as flores. Outras coisas apenas vão... – rapidamente a lembrança de seu filho, morto quando completou um ano, ressurgiu em sua mente. Uma dor contínua que ela aprendeu a suportar. – E temos que nos acostumar com elas. 
 Ana encarava sua mãe, sem expressão, e pensava no que acabara de ouvir. Ela gostava das respostas que Amália dava para suas perguntas. Deixava-a pensativa. Naquele momento ela sorriu para o vento... Para o nada. 
- Eu sou a primavera, então. – Voltou a sorrir novamente, pondo as duas mãos na boca enquanto roía as unhas de seus finos dedos. Pulava devagar, respirava alegria. 
- Sim, você é. – respondeu Amália, também sorrindo e agradecendo a Deus silenciosamente pelo presente recebido, que era sua filha. – Seu sorriso é sua melhor flor.